Notas Sobre o Bahrein

Então está todo mundo emitindo opiniões sobre o polêmico GP do Bahrein, e é claro que aqui no P1 não poderia ser diferente. Afinal, estamos aqui pra isso mesmo: meter o bedelho em tudo que diz respeito à Formula 1.

Para começar, e antes de mais nada, quero linkar uma leitura bacana. É um post do Will Buxton (como vocês sabem, meu blogueiro preferido ever and for always) que basicamente resume tudo que eu penso sobre o assunto. Vale a pena conferir: Bahrain… safety and morality.

Bom, nós sabemos que o Bahrein está convulsionando, incrustado no meio do movimento antitotalitário que se convencionou chamar de Primavera Árabe e que vem varrendo o Oriente Médio e o norte da África nos últimos dois anos. A população desses países, oprimida por ditaduras que se perpetuam há décadas no poder, iniciou uma onda de protestos reivindicando mais democracia, respeito aos direitos humanos e melhores condições de vida.

E é no meio desse bololô todo que tio Bernie quer promover uma corrida de Formula 1.

Enquanto pululam na internet imagens de protestos violentos no Bahrein, e alguns jornalistas esportivos tuítam assombrados fotos de policiais portando pistolas de gás lacrimogêneo, eu me pergunto se (dessa vez) o chefão da F1 não terá razão. Afinal, de contas, qual é o problema em se fazer uma corrida no Bahrein?

O mundial de Formula 1 pega fogo no Bahrein

É claro que nesse momento temos que desconsiderar totalmente o momento “surto psicótico” do chefe da McLaren, Martin Whitmarsh, que comparou a situação do Bahrein com os supostos riscos que o staff da F1 corre em países como Brasil (!) e Índia. Em bom português, Whitmarsh quis dizer que a Formula 1 já esteve em bibocas bem piores, e que, por isso, correr no Bahrein seria o de menos. Discordo absolutamente disso. Acho que São Paulo tem os mesmos problemas de qualquer megalópole no mundo. Mas num ponto eu tenho que concordar: correr no Bahrein é seguro. O país de um modo geral pode não estar absolutamente seguro, mas o circuito de Sakhir e seu entorno estarão, pelo menos nesse fim de semana. E, havendo condições de segurança para pilotos, equipes, jornalistas e público, não vejo nenhum impedimento à realização do GP.

A grande questão (que, aliás vem me irritando profundamente durante todo esse imbróglio) é que as pessoas estão fazendo uma confusão enorme, com o intuito de adicionar outras coisas ao pacote. Vejo alguns jornalistas levantando a bandeira de uma suposta moral, acusando a Formula 1 de ser conivente com a ditadura barenita, de ser mercenária, de colocar o dinheiro acima de tudo. Gente, vamos falar sério. Desde quando a Formula 1 se transformou em juíza de caráter do governo de qualquer país? Desde quando qualquer entidade esportiva se arvorou desse papel? A nossa falta de memória é tamanha assim para já termos esquecido o angu de caroço que resulta quando esporte e política tentam se misturar? No mundo de onde eu venho, as pessoas se envergonham de acontecimentos como o bico de Adolf Hitler, que se recusou a reconhecer as quatro medalhas de ouro do não-ariano Jesse Owens nas Olimpíadas de Berlim, em 1936. As pessoas repudiam com veemência o atentado terrorista que matou 11 atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972. As pessoas lamentam os boicotes às Olimpíadas de Moscou (1980) e Los Angeles (1984), quando Estados Unidos e União Soviética arruinaram o maior momento de congraçamento esportivo universal só para ficarem brincando de lutinha entre si pra ver quem mandava mais no mundo. Vocês acham mesmo que a Formula 1, em pleno século XXI, tem que ficar levantando bandeiras políticas? Eu acho que não.

Esporte e política: uma boa ideia?

Uma curiosidade: o GP do Bahrein entrou no calendário da Formula 1 em 2004. Vocês sabem quem eram os governantes do país nessa época? Os mesmos contra os quais o povo está se insurgindo agora! E que, por sinal, estão lá desde 1971. Meu Deus, onde estavam os defensores da moral durante todos esses anos? Como eles permitiram que acontecessem corridas durante 7 anos nesse país de ditadores? Ou será que isso não importava muito quando não estava na mídia? Hipocrisia detected.

Vamos lembrar que ano passado o GP do Bahrein foi cancelado justamente por causa dos protestos, uma vez que não havia condições de segurança no país. Este ano, a FIA verificou e garantiu que o Bahrein atende às exigências para a realização de um GP. Faltando pouco para o início dos primeiros treinos livres, as equipes reportam no Twitter cenários de paz e tranquilidade (inclusive brinquei que a frase do fim de semana será: Looks peaceful). Ao contrário do que dizem alguns, a FIA não está exercendo um papel de referendar um regime ditatorial e contrário aos direitos humanos. A FIA está cumprindo seu papel de promover corridas de F1 ao redor do mundo, conforme seu calendário. Que é o que lhe compete fazer, a menos que haja um forte impeditivo que impossibilite a realização das corridas.

Além disso, e me permitam aqui um momento de descontração depois de tanta seriedade, não haverá nenhum tipo de problema no GP do Bahrein. O lendário piloto barenita Jujube estará lá para garantir que tudo vai correr bem.

Jujube aciona seus contatos para garantir a paz no GP do Bahrein