Eles Voltaram

O mundial de Formula 1 está pegando fogo. E não é por causa dos protestos no Bahrein. A turbulência política barenita, aliás, que ameaçava varrer o fim de semana do GP como uma tempestade de areia, acabou passando ao largo do circo da F1. À exceção da Force India, que viu uma bomba explodir ao lado de um dos carros de seu staff, teve funcionários pedindo para voltar pra casa e boicotou um dos treinos livres em sinal de protesto, todos pareceram reportar um fim de semana pacífico e sem transtornos. Ao que parece, muito do alarde provocado em torno das circunstâncias políticas que envolviam o GP não passou de — como foi incrivelmente bem ressaltado por Galvão Bueno e Mariana Becker — exagero da imprensa britânica, notória por sua tradição no mundo dos tabloides.

Mas o que interessa é o que aconteceu na pista, e, ali sim, o fim de semana foi bem movimentado. Começando por um treino classificatório onde, após a absoluta dominação no GP da China, a Mercedes deixou a desejar. Michael Schumacher foi magistralmente trollado por Heikki Kovalainen, que lhe roubou a 17.ª posição aos 45 do segundo tempo, e não passou do Q1. Nico Rosberg, sério candidato à pole position, deixou pra dar sua flying lap após a bandeirada final, errou e ficou só no 5.º tempo. Será que o duto mágico da Mercedes não está mais fazendo diferença nem no qualifying? O treino classificatório também não foi lá muito feliz para as Ferraris nem para as Williams. Bruno Senna, pelo menos, largou bem à frente de Pastor Maldonado, que perdeu 5 posições no grid por trocar o câmbio. Felipe Massa largou atrás de Bruno Senna (enough said).

O campeão voltou

Na corrida, uma surpresa (ou não): Red Bull está de volta na parada. Bom, pelo menos Sebastian Vettel está. Pela faceirice do bicampeão em retornar ao lugar mais alto do pódio, deu pra ter uma ideia do sufoco que a equipe vem passando. Mark Webber, por sua vez, ainda não retornou totalmente ao clima vencedor, e acabou terminando atrás das Lotus, sem abiscoitar um lugar no pódio. A Lotus, por sinal, que vinha enchendo o saco de todo mundo no Twitter com a hashtag #WhereIsMyPodium, finalmente encontrou o que procurava, e logo dois de uma vez. Levou Raikkonen e Grosjean para o pódio. O finlandês, em apenas sua quarta corrida após a reestreia, já conseguiu um segundo lugar. Mas quem pensa que o Iceman ficou feliz com isso está redondamente enganado. Raikkonen acabou a corrida reclamando no rádio da equipe que não tinha conseguido vencer, e continuou resmungando, sem esboçar nem um sorrisinho no pódio. Dá uma aliviada, né, Kimi?

A McLaren, que vinha bem na foto até a semana passada, conseguiu arruinar todos os pit stops de Lewis Hamilton, que, apesar de ter largado na primeira fila, acabou amargando apenas o oitavo lugar. Jenson Button abandonou nas últimas voltas, completando um fim de semana negro para os britânicos. Quem também abandonou a poucas voltas do fim foi Bruno Senna. Mas, se para a Williams o fim de semana foi trágico, para Bruno não foi tão ruim assim. O brasileiro novamente conseguiu um desempenho melhor que o de Maldonado, que abandonou antes da metade da corrida.

Ferrari: precisando de toda ajuda possível

Lá para os lados do cavalinho rampante, a coisa, pra variar, não andou nada boa. Alonso terminou em 7.º e Massa, em 9.º. O brasileiro, aliás, protagonizou um dos momentos curiosos da corrida. Massa andava logo atrás de Alonso e vinha em ritmo mais forte, quando começou a pipocar aqui e ali a ideia esdrúxula: mas por que a Ferrari não manda o Alonso abrir pra ele passar? Pelamor… Realmente deve ser muito difícil as pessoas enxergarem que Fernando Alonso já tem uma vitória na temporada (conseguida no braço apesar de estar pilotando essa carroça) e está na briga pelo título, enquanto Massa ainda não disse a que veio (o que, por sinal, não é de hoje). Além disso, Massa em nenhum momento chegou a ameaçar seriamente a posição de Alonso. Nem mesmo quando o espanhol desviou do traçado original para tentar pegar o vácuo de uma Sauber que entrava nos boxes. Além do mais, que história é essa de olhar pra um carro vermelho e achar que alguém tem que deixar alguém passar? Será que todo mundo esqueceu qual é o ofício de um piloto de Formula 1? Vamos ganhar posição na pista, minha gente! OK, Alonso é um pé no saco, e eu também não aguento os ataques de bichice que ele tem durante as corridas, apesar de eu achá-lo um piloto imensamente talentoso e ele ser um dos meus preferidos. Mas não é esse sentimento de revanchismo que vai ajudar o Massa.

Com a performance discreta da Mercedes (que ainda contou com uma ajudinha dos comissários, que fizeram vista grossa para dois incidentes envolvendo Rosberg), a Lotus colocando seus dois carros no pódio e a Red Bull voltando a vencer, o campeonato ficou embolado e absurdamente interessante. As 4 primeiras corridas foram vencidas por 4 pilotos de equipes diferentes, e no mundial apenas 10 pontos separam o primeiro do quinto colocado. Por enquanto, as Red Bull e as McLaren dominam, mas Fernando Alonso e Nico Rosberg seguem no encalço.

Agora, a Formula 1 faz uma pausa de 20 dias até o GP da Espanha. Na primeira semana de maio, as equipes farão treinos em Mugello, e há promessas de novidades — principalmente numa certa scuderia itaiana. A temporada europeia pode apresentar uma realidade completamente diferente. Ou não.

Bicampeão e troll de plantão: chifrinho no vice

Depois de quatro corridas, com todo mundo já descansado da cara das Red Bull, confesso que foi bom ver Sebastian Vettel de novo no degrau mais alto do pódio. O alemão fez uma corridaça e conseguiu segurar Kimi Raikkonen com competência atrás dele até o fim. E nos brindou com toda a sua irreverência e animação durante a premiação — inclusive colocando chifrinhos em Kimi Raikkonen na hora das fotos (link abaixo). O finlandês, aliás, bem que podia vencer em Barcelona e bagunçar ainda mais o campeonato. Será? Daqui a 3 semanas saberemos.

http://www.twitvid.com/embed.php?guid=VMCY8&autoplay=0

Notas Sobre o Bahrein

Então está todo mundo emitindo opiniões sobre o polêmico GP do Bahrein, e é claro que aqui no P1 não poderia ser diferente. Afinal, estamos aqui pra isso mesmo: meter o bedelho em tudo que diz respeito à Formula 1.

Para começar, e antes de mais nada, quero linkar uma leitura bacana. É um post do Will Buxton (como vocês sabem, meu blogueiro preferido ever and for always) que basicamente resume tudo que eu penso sobre o assunto. Vale a pena conferir: Bahrain… safety and morality.

Bom, nós sabemos que o Bahrein está convulsionando, incrustado no meio do movimento antitotalitário que se convencionou chamar de Primavera Árabe e que vem varrendo o Oriente Médio e o norte da África nos últimos dois anos. A população desses países, oprimida por ditaduras que se perpetuam há décadas no poder, iniciou uma onda de protestos reivindicando mais democracia, respeito aos direitos humanos e melhores condições de vida.

E é no meio desse bololô todo que tio Bernie quer promover uma corrida de Formula 1.

Enquanto pululam na internet imagens de protestos violentos no Bahrein, e alguns jornalistas esportivos tuítam assombrados fotos de policiais portando pistolas de gás lacrimogêneo, eu me pergunto se (dessa vez) o chefão da F1 não terá razão. Afinal, de contas, qual é o problema em se fazer uma corrida no Bahrein?

O mundial de Formula 1 pega fogo no Bahrein

É claro que nesse momento temos que desconsiderar totalmente o momento “surto psicótico” do chefe da McLaren, Martin Whitmarsh, que comparou a situação do Bahrein com os supostos riscos que o staff da F1 corre em países como Brasil (!) e Índia. Em bom português, Whitmarsh quis dizer que a Formula 1 já esteve em bibocas bem piores, e que, por isso, correr no Bahrein seria o de menos. Discordo absolutamente disso. Acho que São Paulo tem os mesmos problemas de qualquer megalópole no mundo. Mas num ponto eu tenho que concordar: correr no Bahrein é seguro. O país de um modo geral pode não estar absolutamente seguro, mas o circuito de Sakhir e seu entorno estarão, pelo menos nesse fim de semana. E, havendo condições de segurança para pilotos, equipes, jornalistas e público, não vejo nenhum impedimento à realização do GP.

A grande questão (que, aliás vem me irritando profundamente durante todo esse imbróglio) é que as pessoas estão fazendo uma confusão enorme, com o intuito de adicionar outras coisas ao pacote. Vejo alguns jornalistas levantando a bandeira de uma suposta moral, acusando a Formula 1 de ser conivente com a ditadura barenita, de ser mercenária, de colocar o dinheiro acima de tudo. Gente, vamos falar sério. Desde quando a Formula 1 se transformou em juíza de caráter do governo de qualquer país? Desde quando qualquer entidade esportiva se arvorou desse papel? A nossa falta de memória é tamanha assim para já termos esquecido o angu de caroço que resulta quando esporte e política tentam se misturar? No mundo de onde eu venho, as pessoas se envergonham de acontecimentos como o bico de Adolf Hitler, que se recusou a reconhecer as quatro medalhas de ouro do não-ariano Jesse Owens nas Olimpíadas de Berlim, em 1936. As pessoas repudiam com veemência o atentado terrorista que matou 11 atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972. As pessoas lamentam os boicotes às Olimpíadas de Moscou (1980) e Los Angeles (1984), quando Estados Unidos e União Soviética arruinaram o maior momento de congraçamento esportivo universal só para ficarem brincando de lutinha entre si pra ver quem mandava mais no mundo. Vocês acham mesmo que a Formula 1, em pleno século XXI, tem que ficar levantando bandeiras políticas? Eu acho que não.

Esporte e política: uma boa ideia?

Uma curiosidade: o GP do Bahrein entrou no calendário da Formula 1 em 2004. Vocês sabem quem eram os governantes do país nessa época? Os mesmos contra os quais o povo está se insurgindo agora! E que, por sinal, estão lá desde 1971. Meu Deus, onde estavam os defensores da moral durante todos esses anos? Como eles permitiram que acontecessem corridas durante 7 anos nesse país de ditadores? Ou será que isso não importava muito quando não estava na mídia? Hipocrisia detected.

Vamos lembrar que ano passado o GP do Bahrein foi cancelado justamente por causa dos protestos, uma vez que não havia condições de segurança no país. Este ano, a FIA verificou e garantiu que o Bahrein atende às exigências para a realização de um GP. Faltando pouco para o início dos primeiros treinos livres, as equipes reportam no Twitter cenários de paz e tranquilidade (inclusive brinquei que a frase do fim de semana será: Looks peaceful). Ao contrário do que dizem alguns, a FIA não está exercendo um papel de referendar um regime ditatorial e contrário aos direitos humanos. A FIA está cumprindo seu papel de promover corridas de F1 ao redor do mundo, conforme seu calendário. Que é o que lhe compete fazer, a menos que haja um forte impeditivo que impossibilite a realização das corridas.

Além disso, e me permitam aqui um momento de descontração depois de tanta seriedade, não haverá nenhum tipo de problema no GP do Bahrein. O lendário piloto barenita Jujube estará lá para garantir que tudo vai correr bem.

Jujube aciona seus contatos para garantir a paz no GP do Bahrein