Sete

Hamilton no sétimo céu

Sete. Um número para não ser esquecido na história da Formula 1. Pela primeira vez em todos os tempos, o campeonato da categoria mais nobre do automobilismo mundial começa com 7 vencedores diferentes nas 7 primeiras corridas. Um recorde.

A honra dessa vez coube a um amigo íntimo das vitórias. O britânico Lewis Hamilton faturou o GP do Canadá e, de quebra, assumiu a ponta do mundial, dois pontos à frente do espanhol Fernando Alonso. Apenas um ponto atrás de Alonso, o atual campeão Sebastian Vettel segue em terceiro. O mundial de pilotos continua embolado e ainda é impossível prever um favorito ao título, com 3 pilotos de 3 equipes diferentes separados por apenas 3 pontos – e a F1 segue mais numerológica do que nunca.

Trio Parada Dura

Hamilton foi competente em colaborar com a boa estratégia de trocas de pneus da McLaren, aproveitando para fazer voltas rápidas quando estava sem tráfego à frente. Além disso, contou com falhas de Ferrari e Red Bull, que tentaram uma estratégia mambembe de uma parada só, e chegaram ao fim da corrida se arrastando.

Vettel, por sinal, conseguiu evitar um prejuízo maior com uma parada a 7 voltas do fim. Já Fernando Alonso, que tinha cerca de 15 segundos de vantagem para Hamilton a 10 voltas do final, insistiu em levar seus pneus carecas até a linha de chegada e acabou sendo ultrapassado por diversos carros, saindo da liderança para o quinto lugar. Não se pode negar que o espanhol pensou no campeonato. De qualquer maneira, a diferença de dois pontos para Hamilton no mundial é praticamente um empate técnico. Mas, se Alonso tivesse parado na hora em que sua Ferrari começou a andar na casa de 1:21, poderia talvez até ter salvado um pódio. Foi um erro catastrófico de estratégia da Ferrari, que pode ter custado pontos preciosos do seu candidato a campeão.

Alguém empurra essa Ferrari aí

Nâo que erros da Ferrari sejam uma grande novidade este ano. A equipe italiana vive numa draga sem precedentes. Porém, sempre fica a impressão de que o melhor possível será feito para o piloto postulante ao título. Até porque, com relação a Felipe Massa, não seria de se estranhar se a equipe já tivesse jogado a toalha. Justamente quando Massa conseguiu um bom qualifying, largando em sexto e disputando posições nas primeiras voltas, um erro colocou tudo a perder. O brasileiro perdeu a traseira sozinho e rodou, jogando a corrida direto no lixo. Resultado: o brasileiro é apenas o 14.º colocado no mundial de pilotos, atrás de – pasmem – Bruno Senna. Por pior que a Ferrari esteja na temporada 2012, não podemos esquecer que o outro piloto da escuderia está disputando o título. Por qualquer ângulo que se veja, é pouco. Muito pouco.

Bruno Senna, por sinal, também teve um fim de semana esquecível. Apesar de ficar à frente de Maldonado no qualifying, o brasileiro não conseguiu fazer sua Williams andar sequer no pelotão intermediário, terminando em 17.º. Bruno faz questão de dizer que não sente a pressão por vitórias em seu primeiro ano na equipe inglesa. Mas é impossível negar que a vitória do venezuelano pesa. Especialmente quando Bruno ainda não se aproximou do pódio e vem colecionando alguns erros bobos. Menos mal que Senna foi laureado com o troféu Lorenzo Bandini de promessa da F1, o que certamente conta pontos a seu favor dentro da equipe. Mas é bom lembrar que, enquanto isso, pilotos novatos de equipes intermediárias estão batendo ponto no pódio, como aconteceu com Pérez e Grosjean no Canadá.

Sergio Pérez: sangue novo no pódio

E para completar as aventuras desconcertantes de Montréal, o episódio do bullying sobre Jacques Villeneuve: o ex-campeão mundial filho do gênio que dá nome ao autódromo canadense teve a coragem (que, diga-se de passagem, lhe é peculiar) de verbalizar o tédio mortal que todos os espectadores estavam sentindo lá pelas tantas do GP do Canadá. Perguntado pelo repórter da Globo, Carlos Gil, o que estava achando da corrida, Jacques disparou: “A corrida está chata”. Cinco minutos depois, um show de reviravoltas deixou a corrida eletrizante. E a imprensa brasileira em peso crucificou o coitado. Não sei se é o caso de uma rixa pessoal ou se as pessoas realmente não se deram conta do timing. O fato é que, na hora da entrevista com Jacques, a corrida realmente estava um porre. Coincidentemente, foi só o ex-campeão falar isso e, cinco minutos depois, o que antes era uma procissão virou uma das corridas mais emocionantes do ano. Ficou engraçado? Ficou. Mas nada que justificasse os #chupavilleneuve que pulularam no Twitter logo depois.

“Olha minha cara de preocupação”

 A seguir, GP da Europa em Valência, na Espanha. Don Fernando Alonso corre em casa, de novo. O que isso que dizer? Se a Ferrari deixar, dia 24 saberemos.

De Cara Nova… pero no mucho


Red Bull na cabeça. De novo. 

A temporada 2012 da Formula 1 vem se mostrando diferente em vários aspectos. Mas não tanto assim. Finalmente uma equipe conseguiu emplacar uma segunda vitória, embora nenhum piloto vencedor ainda tenha se repetido. Um recorde absoluto na história da F1: 6 vencedores diferentes nas seis primeiras corridas. De longe, o início de temporada mais embolado e emocionante da história. Mas uma equipe já conseguiu botar seus dois pilotos no topo do pódio. E essa equipe foi – adivinhem? – a Red Bull. Déja vu?

A equipe austríaca mandou bem com seus dois pilotos. Mark Webber contou com um pouquinho de sorte e herdou a pole position de Michael Schumacher, que fez a volta mais rápida no qualifying mas perdeu 5 posições como punição pelo acidente com Bruno Senna na Espanha. Largando na frente em um circuito onde é praticamente impossível ultrapassar, Webber fez o que tinha que fazer. Pilotando de cara pro vento, conseguiu abrir uma boa vantagem para se manter na frente após as trocas de pneus, sem cometer erros. Não era o serviço mais difícil do mundo, e ele o executou com competência. Sebastian Vettel se apoiou na boa estratégia de corrida montada pela equipe, depois de um qualifying desastroso, e acabou com um lucro milionário na quarta posição. O alemão largou com pneus macios, enquanto a esmagadora maioria do grid largava de supermacios, e foi o último a parar nos boxes. Além disso, ganhou posições com a punição a Maldonado (que perdeu 10 posições no qualifying) e com o enrosco entre Grosjean e Schumacher logo na primeira volta.

E por falar em Maldonado, parece que o venezuelano da Williams voltou ao normal depois do surto de Barcelona. Sim, meus caros, parece que tudo não passou de um mal-entendido, e o bom e velho “Maldanado” está de volta. Pastor largou lá atrás devido a uma punição por excesso de zueira nos treinos livres, e logo de saída arrumou um enrosco com Pedro De La Rosa. O resultado foi mais um carro destruído e mais uma corrida sem pontos. Bom, nem preciso dizer o quanto isso foi bom para o Bruno Senna, certo? Bruno fez um qualifying fraquíssimo, mas conseguiu se recuperar e deu o azar de ficar preso no tráfego atrás de carros mais lentos (leia-se Kimi Raikkonen). O que importa é que Bruno conseguiu cruzar a linha de chegada na zona de pontuação, o que vem se tornando (quase) uma rotina. O único problema é que as vitórias de Bruno sobre o companheiro de equipe têm sido muito mais culpa dos disparates do venezuelano do que de uma boa performance do brasileiro. Senna ainda está sob observação, e de olhos bem atentos.

Joinha, Bruno? 

Para completar a gira latinoamericana, faltou falar de Sergio Pérez. O mexicano se atravessou na frente de Raikkonen para entrar nos boxes e levou um drive-through, mas merece aplausos por ter sido o único a promover um pouco de emoção na corrida com tentativas de ultrapassagem. Graças a Pérez, o GP de Mônaco não foi uma procissão. Gracias, Checo!

Raikkonen, por sinal, liderou um pelotão de carros mais rápidos durante boa parte da corrida (que sonozzzzzzzzzz…). O que, de qualquer maneira, foi melhor do que a lambança que seu companheiro de equipe conseguiu arrumar logo após a largada. Pois é, Grosjean abandonou de novo. E a Lotus, que tanto prometia, está se afastando do pelotão da frente, assim como a Mercedes.

Lotus: ficando pra trás

Não que a briga pelo mundial de pilotos não esteja acirrada. O milagreiro Fernando Alonso, que conseguiu outro pódio com a Ferrari, está na frente com 76 pontos, seguido pelos dois pilotos da Red Bull, ambos com 73. Logo atrás vem Lewis Hamilton, com 63 pontos. Na casa dos 50 estão Nico Rosberg (59) e Kimi Raikkonen (51). A quem interessar, Massa está em 14º com 10 pontos, atrás de Bruno Senna, com 15. Pois é, pessoal. Após 6 corridas, Massa não é nem sequer o brasileiro mais bem colocado no mundial. E isso que seu compatriota tem pouco mais da metade dos pontos do companheiro de equipe. Que fase…

A próxima parada dessa eletrizante temporada é no Canadá, daqui a duas semanas. Ano passado, Jenson Button levou a melhor lá. Mas alguém acredita que esse resultado possa se repetir? Eu, sinceramente, não. Do jeito que vão a McLaren e o Jenson, está mais fácil apostar numa vitória do Felipe Massa. OK, pensando bem, Button não está tão mal assim. Mas o mais importante é que o fuso horário canadense é quase igual ao nosso, o que significa que ninguém precisa acordar cedo pra ver a corrida! #todascomemora

O P1 ama Gilles Villeneuve. E o circuito lindo que leva seu nome.

Por falar em acordar cedo, está na hora de curar a ressaca das festchénhas monegascas e partir pro tudo ou nada no circuito Gilles Villeneuve. Com a inspiração desse gênio, aliás, eu confesso que tendo a apostar minhas fichas em um certo espanhol que soltou essa pérola no Twitter no último domingo, após a corrida:

@alo_oficial: “El mejor guerrero no es el que triunfa siempre, sino el que vuelve sin miedo a la batalla.”

Pois que venha a próxima batalha!

Fernando Alonso preparado pra batalha do champanhe

PS: Já que o povo adora mandar no que a Ferrari devia ou não devia dizer no rádio, eu acho que, depois desse tweet, o Rob Smedley devia dizer no rádio do seu piloto: Felipe, Fernando is smarter than you. Sem mais.

Eles Voltaram

O mundial de Formula 1 está pegando fogo. E não é por causa dos protestos no Bahrein. A turbulência política barenita, aliás, que ameaçava varrer o fim de semana do GP como uma tempestade de areia, acabou passando ao largo do circo da F1. À exceção da Force India, que viu uma bomba explodir ao lado de um dos carros de seu staff, teve funcionários pedindo para voltar pra casa e boicotou um dos treinos livres em sinal de protesto, todos pareceram reportar um fim de semana pacífico e sem transtornos. Ao que parece, muito do alarde provocado em torno das circunstâncias políticas que envolviam o GP não passou de — como foi incrivelmente bem ressaltado por Galvão Bueno e Mariana Becker — exagero da imprensa britânica, notória por sua tradição no mundo dos tabloides.

Mas o que interessa é o que aconteceu na pista, e, ali sim, o fim de semana foi bem movimentado. Começando por um treino classificatório onde, após a absoluta dominação no GP da China, a Mercedes deixou a desejar. Michael Schumacher foi magistralmente trollado por Heikki Kovalainen, que lhe roubou a 17.ª posição aos 45 do segundo tempo, e não passou do Q1. Nico Rosberg, sério candidato à pole position, deixou pra dar sua flying lap após a bandeirada final, errou e ficou só no 5.º tempo. Será que o duto mágico da Mercedes não está mais fazendo diferença nem no qualifying? O treino classificatório também não foi lá muito feliz para as Ferraris nem para as Williams. Bruno Senna, pelo menos, largou bem à frente de Pastor Maldonado, que perdeu 5 posições no grid por trocar o câmbio. Felipe Massa largou atrás de Bruno Senna (enough said).

O campeão voltou

Na corrida, uma surpresa (ou não): Red Bull está de volta na parada. Bom, pelo menos Sebastian Vettel está. Pela faceirice do bicampeão em retornar ao lugar mais alto do pódio, deu pra ter uma ideia do sufoco que a equipe vem passando. Mark Webber, por sua vez, ainda não retornou totalmente ao clima vencedor, e acabou terminando atrás das Lotus, sem abiscoitar um lugar no pódio. A Lotus, por sinal, que vinha enchendo o saco de todo mundo no Twitter com a hashtag #WhereIsMyPodium, finalmente encontrou o que procurava, e logo dois de uma vez. Levou Raikkonen e Grosjean para o pódio. O finlandês, em apenas sua quarta corrida após a reestreia, já conseguiu um segundo lugar. Mas quem pensa que o Iceman ficou feliz com isso está redondamente enganado. Raikkonen acabou a corrida reclamando no rádio da equipe que não tinha conseguido vencer, e continuou resmungando, sem esboçar nem um sorrisinho no pódio. Dá uma aliviada, né, Kimi?

A McLaren, que vinha bem na foto até a semana passada, conseguiu arruinar todos os pit stops de Lewis Hamilton, que, apesar de ter largado na primeira fila, acabou amargando apenas o oitavo lugar. Jenson Button abandonou nas últimas voltas, completando um fim de semana negro para os britânicos. Quem também abandonou a poucas voltas do fim foi Bruno Senna. Mas, se para a Williams o fim de semana foi trágico, para Bruno não foi tão ruim assim. O brasileiro novamente conseguiu um desempenho melhor que o de Maldonado, que abandonou antes da metade da corrida.

Ferrari: precisando de toda ajuda possível

Lá para os lados do cavalinho rampante, a coisa, pra variar, não andou nada boa. Alonso terminou em 7.º e Massa, em 9.º. O brasileiro, aliás, protagonizou um dos momentos curiosos da corrida. Massa andava logo atrás de Alonso e vinha em ritmo mais forte, quando começou a pipocar aqui e ali a ideia esdrúxula: mas por que a Ferrari não manda o Alonso abrir pra ele passar? Pelamor… Realmente deve ser muito difícil as pessoas enxergarem que Fernando Alonso já tem uma vitória na temporada (conseguida no braço apesar de estar pilotando essa carroça) e está na briga pelo título, enquanto Massa ainda não disse a que veio (o que, por sinal, não é de hoje). Além disso, Massa em nenhum momento chegou a ameaçar seriamente a posição de Alonso. Nem mesmo quando o espanhol desviou do traçado original para tentar pegar o vácuo de uma Sauber que entrava nos boxes. Além do mais, que história é essa de olhar pra um carro vermelho e achar que alguém tem que deixar alguém passar? Será que todo mundo esqueceu qual é o ofício de um piloto de Formula 1? Vamos ganhar posição na pista, minha gente! OK, Alonso é um pé no saco, e eu também não aguento os ataques de bichice que ele tem durante as corridas, apesar de eu achá-lo um piloto imensamente talentoso e ele ser um dos meus preferidos. Mas não é esse sentimento de revanchismo que vai ajudar o Massa.

Com a performance discreta da Mercedes (que ainda contou com uma ajudinha dos comissários, que fizeram vista grossa para dois incidentes envolvendo Rosberg), a Lotus colocando seus dois carros no pódio e a Red Bull voltando a vencer, o campeonato ficou embolado e absurdamente interessante. As 4 primeiras corridas foram vencidas por 4 pilotos de equipes diferentes, e no mundial apenas 10 pontos separam o primeiro do quinto colocado. Por enquanto, as Red Bull e as McLaren dominam, mas Fernando Alonso e Nico Rosberg seguem no encalço.

Agora, a Formula 1 faz uma pausa de 20 dias até o GP da Espanha. Na primeira semana de maio, as equipes farão treinos em Mugello, e há promessas de novidades — principalmente numa certa scuderia itaiana. A temporada europeia pode apresentar uma realidade completamente diferente. Ou não.

Bicampeão e troll de plantão: chifrinho no vice

Depois de quatro corridas, com todo mundo já descansado da cara das Red Bull, confesso que foi bom ver Sebastian Vettel de novo no degrau mais alto do pódio. O alemão fez uma corridaça e conseguiu segurar Kimi Raikkonen com competência atrás dele até o fim. E nos brindou com toda a sua irreverência e animação durante a premiação — inclusive colocando chifrinhos em Kimi Raikkonen na hora das fotos (link abaixo). O finlandês, aliás, bem que podia vencer em Barcelona e bagunçar ainda mais o campeonato. Será? Daqui a 3 semanas saberemos.

http://www.twitvid.com/embed.php?guid=VMCY8&autoplay=0

Notas Sobre o Bahrein

Então está todo mundo emitindo opiniões sobre o polêmico GP do Bahrein, e é claro que aqui no P1 não poderia ser diferente. Afinal, estamos aqui pra isso mesmo: meter o bedelho em tudo que diz respeito à Formula 1.

Para começar, e antes de mais nada, quero linkar uma leitura bacana. É um post do Will Buxton (como vocês sabem, meu blogueiro preferido ever and for always) que basicamente resume tudo que eu penso sobre o assunto. Vale a pena conferir: Bahrain… safety and morality.

Bom, nós sabemos que o Bahrein está convulsionando, incrustado no meio do movimento antitotalitário que se convencionou chamar de Primavera Árabe e que vem varrendo o Oriente Médio e o norte da África nos últimos dois anos. A população desses países, oprimida por ditaduras que se perpetuam há décadas no poder, iniciou uma onda de protestos reivindicando mais democracia, respeito aos direitos humanos e melhores condições de vida.

E é no meio desse bololô todo que tio Bernie quer promover uma corrida de Formula 1.

Enquanto pululam na internet imagens de protestos violentos no Bahrein, e alguns jornalistas esportivos tuítam assombrados fotos de policiais portando pistolas de gás lacrimogêneo, eu me pergunto se (dessa vez) o chefão da F1 não terá razão. Afinal, de contas, qual é o problema em se fazer uma corrida no Bahrein?

O mundial de Formula 1 pega fogo no Bahrein

É claro que nesse momento temos que desconsiderar totalmente o momento “surto psicótico” do chefe da McLaren, Martin Whitmarsh, que comparou a situação do Bahrein com os supostos riscos que o staff da F1 corre em países como Brasil (!) e Índia. Em bom português, Whitmarsh quis dizer que a Formula 1 já esteve em bibocas bem piores, e que, por isso, correr no Bahrein seria o de menos. Discordo absolutamente disso. Acho que São Paulo tem os mesmos problemas de qualquer megalópole no mundo. Mas num ponto eu tenho que concordar: correr no Bahrein é seguro. O país de um modo geral pode não estar absolutamente seguro, mas o circuito de Sakhir e seu entorno estarão, pelo menos nesse fim de semana. E, havendo condições de segurança para pilotos, equipes, jornalistas e público, não vejo nenhum impedimento à realização do GP.

A grande questão (que, aliás vem me irritando profundamente durante todo esse imbróglio) é que as pessoas estão fazendo uma confusão enorme, com o intuito de adicionar outras coisas ao pacote. Vejo alguns jornalistas levantando a bandeira de uma suposta moral, acusando a Formula 1 de ser conivente com a ditadura barenita, de ser mercenária, de colocar o dinheiro acima de tudo. Gente, vamos falar sério. Desde quando a Formula 1 se transformou em juíza de caráter do governo de qualquer país? Desde quando qualquer entidade esportiva se arvorou desse papel? A nossa falta de memória é tamanha assim para já termos esquecido o angu de caroço que resulta quando esporte e política tentam se misturar? No mundo de onde eu venho, as pessoas se envergonham de acontecimentos como o bico de Adolf Hitler, que se recusou a reconhecer as quatro medalhas de ouro do não-ariano Jesse Owens nas Olimpíadas de Berlim, em 1936. As pessoas repudiam com veemência o atentado terrorista que matou 11 atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972. As pessoas lamentam os boicotes às Olimpíadas de Moscou (1980) e Los Angeles (1984), quando Estados Unidos e União Soviética arruinaram o maior momento de congraçamento esportivo universal só para ficarem brincando de lutinha entre si pra ver quem mandava mais no mundo. Vocês acham mesmo que a Formula 1, em pleno século XXI, tem que ficar levantando bandeiras políticas? Eu acho que não.

Esporte e política: uma boa ideia?

Uma curiosidade: o GP do Bahrein entrou no calendário da Formula 1 em 2004. Vocês sabem quem eram os governantes do país nessa época? Os mesmos contra os quais o povo está se insurgindo agora! E que, por sinal, estão lá desde 1971. Meu Deus, onde estavam os defensores da moral durante todos esses anos? Como eles permitiram que acontecessem corridas durante 7 anos nesse país de ditadores? Ou será que isso não importava muito quando não estava na mídia? Hipocrisia detected.

Vamos lembrar que ano passado o GP do Bahrein foi cancelado justamente por causa dos protestos, uma vez que não havia condições de segurança no país. Este ano, a FIA verificou e garantiu que o Bahrein atende às exigências para a realização de um GP. Faltando pouco para o início dos primeiros treinos livres, as equipes reportam no Twitter cenários de paz e tranquilidade (inclusive brinquei que a frase do fim de semana será: Looks peaceful). Ao contrário do que dizem alguns, a FIA não está exercendo um papel de referendar um regime ditatorial e contrário aos direitos humanos. A FIA está cumprindo seu papel de promover corridas de F1 ao redor do mundo, conforme seu calendário. Que é o que lhe compete fazer, a menos que haja um forte impeditivo que impossibilite a realização das corridas.

Além disso, e me permitam aqui um momento de descontração depois de tanta seriedade, não haverá nenhum tipo de problema no GP do Bahrein. O lendário piloto barenita Jujube estará lá para garantir que tudo vai correr bem.

Jujube aciona seus contatos para garantir a paz no GP do Bahrein

No Outro Lado do Mundo

Segundo David Coulthard, perdendo a virgindade na F1

Dessa vez não teve chuva, nem safety car, nem o embromation de 1 hora do Galvão Bueno. Mas se teve uma coisa que não faltou no GP da China de F1, foi emoção. Embora a primeira parte da corrida tenha sido dominada pelas estratégias de paradas nos boxes, a verdade é que vários pelotões permaneceram colados durante todo o tempo, e o final reservou boas disputas de posições.

Os (chatíssimos) partidários do “Lá vem o Schumi” viveram seu momento fuéns mais uma vez. E não apenas porque o alemão abandonou a prova logo nas primeiras voltas e Nico Rosberg conseguiu sua primeira pole na carreira. O alemãozinho continuou surfando na onda do ineditismo por todo o fim de semana: conseguiu a primeira vitória da carreira, depois de 111 GPs (tenho a leve impressão que o número 1 é o seu número da sorte), e presenteou o pai Keke Rosberg com outro recorde. Keke tornou-se o primeiro piloto de F1 a ver seu filho vencer uma corrida.

Keke aponta para o pequeno Nico um futuro vitorioso

Além dos números positivos, Nico Rosberg também deu uma bela ajuda para a reputação da Mercedes. Se alguém ainda acha que se trata de um carro que só vai bem no qualifying, está na hora de rever seus conceitos. Aliás, sou só eu ou alguém aí está começando a sentir um cheiro de Brawn nessa Mercedes de 2012? A conferir.

Quem também fez bonito na China foi Bruno Senna. O brasileiro parece ter gostado dessa coisa de pontuar, e conseguiu melhorar 7 posições para terminar a corrida em sétimo. Se Bruno (ou seria melhor dizer, a Williams) ainda vem deixando a desejar nos treinos classificatórios e segue tendo espaço para melhoria nas largadas, seu desempenho em corrida tem sido excepcional.

Número 1? Quem sabe daqui a pouco

Continuando na zona brazuca, o que comentar sobre Felipe Massa? Em um dado momento da corrida, Massa estava segurando uns quinze carros atrás dele. OK, eu estou exagerando, mas é só pra vocês conseguirem imaginar melhor a cena. O desempenho da sua Ferrari era claramente inferior ao de carros que até ontem nem ousariam rivalizar com a scuderia. Tudo bem que nesta temporada 2012 muita coisa mudou, mas ainda está difícil acreditar nessa várzea em que a Ferrari se transformou. Para piorar tudo, bem na hora em que a brilhante estratégia de paradas de Massa ia dar uma reviravolta na sua corrida, já que ele havia deixado um set de pneus macios novinhos pra usar na última perna do GP, o que acontece? Vocês têm uma chance pra adivinhar a palavrinha de cinco letras. Pois é, meus amigos, ela mesma: FUÉNS!

Nem com reza braba, Felipe

Depois de 3 corridas disputadas, o GP chinês, ironicamente, pode ter demonstrado que a F1 vive um novo mundo em 2012. A Mercedes se solidifica, e Nico Rosberg desponta enquanto Schumacher vai ficando pelo meio do caminho. A McLaren continua correndo atrás, seguida pela Red Bull (que provavelmente já nem lembrava o que era isso e ainda tropeça um pouco tentando achar um novo passo). A Ferrari se afunda cada vez mais na própria várzea. Enquanto os italianos prometem um carro novo para a temporada europeia, Fernando Alonso dá show com uma máquina sofrível, enquanto Felipe Massa continua sendo esse Felipe Massa que ninguém quer ver. As Williams vêm se mantendo acima das expectativas, e as Lotus, abaixo. E os duzentos campeões mundiais que povoam o grid ainda não disseram exatamente a que vieram.

Flying lap: David Coulthard esbanjando irreverência ao parabenizar Nico Rosberg pela primeira vitória na carreira. @therealdcf1 Delighted to see Nico losing his F1 virginity.”

Derrapada: A poluição e o vazio de Shangai. Apesar de todos os esforços da Formula 1 para manter uma imagem eco-friendly, correr no meio da nuvem cinza que é a atmosfera chinesa causou péssima impressão. Sem contar as arquibancadas desertas vazias, que só chegaram a (quase) encher no domingo. É um público escasso demais para um país de mais de um bilhão de habitantes.

Bahrein, aí vamos nós

Daqui a pouquinho tem GP do Bahrein, que vai merecer um post à parte antes mesmo de acontecer. Não sei se são os misteriosos ares do Oriente, mas a F1 até agora vive um mundo totalmente diferente em 2012. Vamos ficar de olho, que vem muita emoção por aí.

Começou!

Finalmente! Depois de longos meses de espera, a temporada 2012 da Formula 1 começou. Agora, algumas das interrogações que vinham enchendo nossas cabecinhas finalmente começam a se esclarecer.

Para começar, a maior novidade da temporada: os bizarros bicos rebaixados. Ao que parece, a alteração de uma regra de segurança acabou favorecendo a McLaren, que (coincidentemente) já tinha um chassi naturalmente mais baixo que os outros. Se isso tem alguma coisa a ver com algum mexe das internas para abalar a hegemonia da Red Bull, é caso para nossas mentes paranoicas continuarem imaginando teorias da conspiração. A propósito do resultado estético pavoroso dessa novidade, eu ouvi, durante a corrida, um comentário mais ou menos assim: “a Formula 1 não vai resistir a manter carros tão feios.” Confesso que achei a observação engraçadíssima, mas fiquei me perguntando se não teria um fundo de verdade. Afinal, o que é mais importante para a categoria mais prestigiada do mundo? Proteger seus pilotos ou ter os carros mais lindos? A conferir.

Ainda na seara da vitoriosa McLaren, eu tenho que dizer que me dá uma certa dor no coração ver o Hamilton arrebentando no qualifying, pra depois fazer uma largada pífia e jogar a corrida no colo do administrador de carros Jenson Button. Eu sei que o estilo de pilotagem do Button é esse e blá blá blá, e ele dá resultado assim, e já foi campeão do mundo. Mas realmente não me enche os olhos, e eu ainda reluto em colocá-lo no rol dos grande pilotos do grid. Principalmente porque era impossível não ser campeão no ano em que ele foi: pilotando aquele carro da Brawn que era uma uva e tendo o Rubens Barrichello como companheiro de equipe.

De qualquer maneira, a cara de cobre* do Hamilton ao final da corrida não foi justificável. O próprio Vettel, que vinha de uma superioridade absurda na temporada anterior, ganhando tudo, e na primeira corrida da temporada teve que ralar um bom bocado pra chegar em segundo, estava feliz da vida. Provavelmente por ter percebido que a imensa vantagem da Red Bull com relação aos outros carros já se foi totalmente pelo ralo. A verdade é que, apesar de Button ter largado na frente, a temporada a recém começou e Hamilton ainda deve contar com suas benesses dentro da McLaren. É hora de, pelo menos fora das pistas, ter paciência.

Button e Vettel no pódio: só alegria

Outro momento fuéns foi a saída prematura de Romain Grosjean, quando todo mundo estava curioso pra ver até onde a nova Lotus (ex-Renault) poderia chegar. A frustração foi maior ainda pelo desempenho fraco de Kimi Raikkonen.

Mas a grande decepção da corrida, na minha opinião, foi o desempenho da Mercedes. O carro parecia muito bem nascido, mostrou clara superioridade com relação à Ferrari nos treinos livres, e ameaçava rivalizar com a Red Bull. Mas, na hora da corrida, Schumacher acabou fora e Rosberg se perdeu. Vamos esperar para ver se não vai ser mais um ano de “quase” para os alemães.

E se a grande decepção do domingo foi a Mercedes, o que sobra para Felipe Massa? (#trollface) Bom, para mim pessoalmente não foi uma decepção, simplesmente porque não havia expectativas. O desempenho de Massa vem sendo frustrante não é de hoje, e o seu enrosco bisonho com Bruno Senna foi apenas mais uma demonstração disso.

Bruno Senna, aliás, saiu num lucro de 100000% no final da corrida. Na verdade, ele praticamente acertou na loteria na última volta, quando seu companheiro de equipe Pastor Maldonado, que andava pra cruzar a linha de chegada em sexto (!) lugar, errou e jogou sua Williams no muro. Tudo bem que a superioridade do “Maldanado” já era esperada com relação ao Bruno, em vista de seu um ano a mais de experiência na equipe. Mas, estreante ou não, é sempre bom começar a temporada sem levar uma lambada do companheiro de equipe.

Bruno Senna: mais sorte que juízo

Na verdade, ainda é cedo para fazer maiores previsões. A temporada é longa e o GP da Austrália mostrou algumas mudanças no status quo que ainda parecem confusas e carecem de confirmação. A McLaren está mesmo um degrau acima? A Red Bull tem mais para mostrar? A Mercedes vai deslanchar? A Lotus vai se colocar no pelotão da frente? A Ferrari foi realmente pro brejo? A Hispania vai conseguir ficar dentro do limite de 107% em alguma corrida? (OK, eu sei, who cares about Hispania?)

Após o primeiro GP da temporada, eu só tenho uma certeza: alguém precisa dar um vidro de xarope pra garganta pro Galvão Bueno! Porque ficar a corrida inteira com aquela voz de novo não tem condições.

Até a Malásia!

*Para maiores esclarecimentos, vide a tabela periódica

Season Review 2011

Faltando muito pouco para o início da temporada 2012 da Formula 1, a FOM divulgou o vídeo com a Season Review da temporada 2011. O grande astro do vídeo, como seria de se prever, é o alemão Sebastian Vettel. O resultado são 5 minutos de imagens frenéticas magistralmente editadas (como é praxe nos video edits da F1) que relembram as vitórias, as fofocas, os bastidores e todo o frenesi da temporada que passou.

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Flying lap: Desta vez a FOM investiu em um lado mais emocional, ao personificar o bicampeão Vettel como um menininho que via Michael Schumacher pela televisão e sonhava com as pistas de automobilismo. Foi um acerto enorme para uma categoria que é conhecida por condutas esportivas, digamos, não-ortodoxas, e por cultivar uma ética, por assim dizer, duvidosa. Nunca me esqueço do post de final de temporada do blog oficial da GP2, quando o campeão Timo Glock declarou seu desconsolo por ter que abandonar aquele ambiente de amigos para ingressar na jaula dos leões da F1. A verdade é que a Formula 1 sempre nos ganhou pelo coração. O coração de pilotos que arriscam tudo numa curva, que completam uma prova sem marchas, que chegam às vias de fato nos boxes. A Formula 1, para os fãs, é um esporte de paixão, e é muito bom saber que as pessoas que estão no comando ainda entendem isso.

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Derrapada: O clímax da temporada é em Suzuka. É de lá que vêm as imagens em câmera lenta da comemoração do título, as champanhes pipocando e a chuva de papel picado caindo lentamente. O que sobrou para a última corrida da temporada (coincidentemente, no Brasil)? Nada! Absolutamente nada.  O GP Brasil 2011, pelo menos na Season Review, foi um grandissíssimo zero à esquerda. São os inconvenientes de ser o gran finale de uma temporada onde a dominação de um único carro é absurda. Esperamos que neste ano o GP de Interlagos seja protagonista, e não figurante, nos melhores momentos da temporada.