Interlagos Experience

Foi-se o tempo em que um espectador de Formula 1 tinha que praguejar sozinho contra as narrações do Galvão Bueno, num domingo de manhã em que as pessoas normais dormem até mais tarde. Em que vibrava sozinho com as ultrapassagens malucas do Hamilton. Em que ria sozinho com as tosquices dos pilotos japoneses. Em que chorava sozinho ao ouvir o Tema da Vitória e ver uma bandeira brasileira tremulando no lugar mais alto do pódio. OK, com relação a isso parece que, pelo andar da carruagem, realmente foi-se o tempo. Mas enfim, o que importa é que hoje em dia existe uma coisa chamada internet, com suas notícias em tempo real, redes sociais e blogs, e nenhum fã de F1 nunca mais se sentiu sozinho. Graças a essas maravilhas, hoje temos milhares de companheiros de velocidade com quem compartilhar nossas opiniões sobre o esporte mais viciante do planeta. E é pra isso que está nascendo hoje o P1 Blog: opinião sobre Formula 1 em primeiro lugar.

Para estrear, aproveitando que o campeonato deste ano teve seu fim aqui na terrinha, e já que teremos dois longos e tortuosos meses de off-season até o primeiro GP da temporada 2012, vou comentar um pouco sobre a minha Interlagos Experience. Trata-se de nada mais nada menos que um dos grandes sonhos de qualquer aficionado por F1: acompanhar um fim de semana de corrida no autódromo, em pessoa, in loco, ao vivo e em cores.

Vista do Setor A numa linda sexta de sol

Escolhendo um setor 

Eu estive em Interlagos nas duas últimas edições do GP Brasil de F1, em setores diferentes do autódromo e com atividades extra-pista diferentes em cada ano. Em 2010, eu fui de Setor A, que é (inexplicavelmente, na minha opinião) um dos mais baratos. Salvo engano, só perde em preço para o Setor G (o setor da galera, da muvuca e do bandeirão da Red Bull). Este ano, fui de Setor H, que não é dos mais baratos, mas tem promoção e outros atrativos. Resumidamente, o Setor A tem a melhor – sim, eu disse a melhor – visão do autódromo. Dá pra ver praticamente todo o circuito, exceto a parte mais baixa, ali no miolo. A arquibancada fica muito perto da pista, então o ronco dos motores reverbera em volume máximo dentro dos tímpanos. Dependendo da sua localização no setor (o Setor A cobre boa parte da reta dos boxes, ou seja, é enorme), você fica de frente para as últimas posições do grid, o que é legal para quem quer ver um pouco da movimentação dos boxes e do burburinho que rola antes da largada. Ano passado, por exemplo, a arquibancada foi à loucura com a saudação do Bruno Senna, que infelizmente posicionou sua Hispania na última fila, bem de frente pra nós.

Outra vantagem do Setor A é a profusão de quiosques das equipes. Praticamente todas as escuderias importantes estão representadas ali, o que te permite estourar seu cartão de crédito sem dó nem piedade entre um treino e outro. Eu, pessoalmente, recomendo a sexta-feira para liberar seu lado consumista, já que não há muito movimento e consequentemente você não precisa ficar grudado na arquibancada o tempo inteiro pra garantir um bom lugar. Mas me leve a sério quando eu falo em estourar o cartão de crédito: ano passado, o item mais barato que eu encontrei nessas lojinhas foi uma caneca da Ferrari por módicos R$ 80.

Infelizmente, o Setor A também conta com alguns pontos contra, que podem ser bem pesados para o espectador mais desavisado. A arquibancada não é coberta, portanto você está sujeito às intempéries do tempo por 3 dias seguidos. E, como todo mundo sabe, o tempo em Interlagos pode ser bem temperamental. Ano passado, por exemplo, eu tomei um torrão debaixo do sol na sexta-feira e um banho de chuva no sábado. No domingo, era praticamente um alien de casaco e lenço no pescoço debaixo de um calor de mais de 30 graus, tentando me proteger do sol e da dor de garganta. Em alguns – poucos – lugares, que os frequentadores mais experientes já ocupam de cara, existem árvores fazendo sombra. Se você madrugar no autódromo, pode ser que consiga se sentar ali. Ah, sim, porque o Setor A fica sempre lotado, e rápido. Nem pense em chegar depois das 8h da manhã no domingo, se você tiver a pretensão de conseguir um bom lugar.

No Setor A, você também ficará refém de filas homéricas e preços abusivos na hora de comprar comida e bebida. Problema que, por sinal, já não existe no Setor H. Por ser um setor de arquibancada corporativa (sem querer fazer jabá mas já fazendo, é o setor da Mastercard #prontofalei), os comes e bebes já estão incluídos no preço do ingresso, e o (excelente) serviço é fornecido pelo staff do Hotel Renaissance. No Setor H também não preocupa a instabilidade do clima, já que a arquibancada é coberta. Apesar disso, dou um conselho de amiga: não importa se seu setor é coberto ou não, use sempre – eu disse SEMPRE – filtro solar quando for a Interlagos. Neste ano eu fui de H e, mesmo assim, consegui me queimar de novo. E ninguém merece ir à festa de encerramento da F1 com o rosto descascando. Ah, sim, a festa oficial da F1! Falaremos disso daqui a pouquinho.

Vista gradeada: é o que tem pra hoje no Setor H

Infelizmente, nem tudo são flores no Setor H. A visão é bem limitada, basicamente só o S do Senna, a curva do Sol e um alguma coisa da reta oposta. Também se vê alguma coisa da saída dos boxes (como a roda saltitante do Timo Glock, por exemplo). Em geral, não é uma visão boa, em comparação com o Setor A. Por sorte, este ano aconteceram lances emocionantes justamente ali, como o choque entre Bruno Senna e Schumacher, o resultado da lambança no pit stop da Virgin, uma saída do Alonso durante os treinos e algumas disputas interessantes.

Financeiramente, a diferença de preços é significativa. O ingresso para o Setor H custa cerca de 3 vezes mais que o do Setor A. Porém (olha o jabá de novo) os ingressos do H são objeto de uma promoção do tipo Pague 1 Leve 2 da Mastercard, portanto se você tem companhia para ir ao GP, ele acaba ficando “apenas” 50% mais caro. Ah, saliento que, para usufruir dessa barbada, é preciso possuir um cartão Platinum dessa bandeira. Nada que você não consiga passando uma conversa no seu gerente de banco (conselho de bancária).

Chegando lá 

Que o trânsito de São Paulo é caótico, você já deve ter ouvido falar. Mas uma coisa eu não posso negar: tudo é extremamente organizado. Para o fim de semana do GP, a prefeitura prepara um esquema especial de ônibus que partem de 6 pontos-chave da cidade e te deixam no autódromo, a poucos metros do seu portão. Este ano, a passagem de ida e volta do Expresso SPTrans F1 custava R$ 20 reais por dia. Ano passado também usei esse esquema, que costuma ser o mesmo todos os anos. Bastou reservar um hotel a 100 metros de um dos pontos de embarque – no meu caso, a Praça da República – e voilá.

Apenas lembre que esses ônibus só circulam no sábado e no domingo. Se você também vai pra Interlagos na sexta-feira (dia em que o autódromo fica bem vazio), a melhor opção é pegar o metrô. Que, casualmente, também ficava a 100 metros do meu hotel. Pegue a linha Esmeralda, faça uma aprazível viagem de trem durante uns 20 minutos e desça na estação Autódromo. Fica a uns 2km do autódromo, mas sempre haverá moradores de carro fazendo plantão na saída do metrô, dispostos a te deixar na frente do seu portão em troca de uns R$ 10 (valeu, Seu Toninho!). Outra opção, pra quem se dispõe a gastar, é ir de táxi, já que na sexta o trânsito de veículos no entorno do autódromo é permitido.

E, como você já deve ter percebido, se hospedar em um hotel bem localizado é fundamental. Este ano, os ônibus especiais saíram da Praça da República, da Av. Paulista (Trianon-Masp), do metrô Jabaquara, do aeroporto de Congonhas, do Shopping Interlagos e do Shopping SP Market. Eu recomendo fortemente o entorno da Praça da República (embora não recomende andar por ali à noite), mas ficando perto de qualquer estação do metrô você estará bem localizado.

Ingresso na mão. Let’s rock!

Fora do circuito 

Um dos maiores arrependimentos da minha vida foi não ter pedido uma foto com um dos meus grandes ídolos da F1, o Robert Kubica, quando estive frente a frente com ele ano passado no hotel Hyatt, onde se realizou a coletiva da Pirelli. Houve um evento com fãs do Bruno Senna na entrada do hotel e, enquanto aguardávamos o Bruno, vimos passar o Kubica, o Petrov (acredito que toda a Renault estava hospedada lá), o Lucas Di Grassi e – pasmem – o Sebastian Vettel. Então, se você acha legal ficar a dois metros dos pilotos, dar um perdido no hotel da coletiva é uma boa ideia. Tradicionalmente, ela é realizada na quarta-feira da semana do GP, mas vale a pena se informar melhor quando novembro chegar. O legal é que nunca tem ninguém além de jornalistas, pilotos e staff. E os seguranças do Hyatt são gente boníssima.

Mas certamente a melhor atividade off-track que você pode planejar é ir à F1 Rocks – The Afterparty. Trata-se de uma festa exclusiva que tem várias edições durante o ano, em vários países, sempre no domingo à noite depois do GP. Obviamente, sempre tem uma edição em São Paulo (será que os gringos acham que brasileiros são festeiros?). Eu fui este ano e posso assegurar: é imperdível. A festa é open bar, tem muita gente bonita e pra qualquer lado que se olhe você vê alguém que trabalha em alguma das equipes. Resumindo: você pode viver momentos únicos, como receber uma secada do Nico Rosberg (antes que alguém pergunte, não aconteceu comigo, mas eu testemunhei) ou ver o Nelsinho Piquet brincando de lutinha na finaleira da noite. Ou dar de cara com seu jornalista favorito, como o Galvão Bueno (#not) com sua prole de pilotos de Stock Car, ou o meu blogueiro favorito de todos os tempos, Will Buxton, que passou por mim como uma flecha em direção ao camarote. Você também pode receber conselhos de mecânicos da Lotus, e passar a noite ouvindo a mesma frase em cinco idiomas diferentes: “mas não tem caipirinha?” Em suma: pra qualquer fã de F1 e apreciador de uma boa festa, é diversão em estado puro.

Ah, e não se apavore com os preços do site oficial da festa. Não conheço ninguém que tenha chegado a pagar aquelas 250 libras (sim, você leu certo) por um ingresso. Na semana do GP, os organizadores em São Paulo disponibilizam lotes a preços bem mais camaradas. Eu paguei R$ 80 pelo meu.

Enfim, este loooongo post de estreia foi uma tentativa tímida de mostrar o que é viver um GP Brasil de F1 na pele. Mas só mesmo estando lá é possível saber o que é ter aquele cheiro de borracha queimada entranhado nas narinas, as queimaduras do sol inclemente de Interlagos marcadas na pele, o grito ensurdecedor dos motores dentro dos ouvidos. Sem querer fazer jabá de novo, mas já fazendo: não tem preço.

Até a próxima, Interlagos!

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